Autora mirim lança livro para estimular brincadeiras com o pai

Letícia Costa tem apenas nove anos e decidiu escrever o manual quando ouviu as amigas reclamarem que seus pais eram ausentes

Letícia Costa diz que escreveu o livro para ajudar as outras crianças e famílias serem mais felizes. Foto: Arquivo Pessoal

Letícia Costa diz que escreveu o livro para ajudar as outras crianças e famílias serem mais felizes. Foto: Arquivo Pessoal

Letícia Costa Moura tem apenas nove anos, mas de tanto ouvir as amigas reclamando da ausência dos pais durante as brincadeiras em casa teve uma ideia genial. Ela dedicou as férias escolares, em janeiro passado, para um projeto ousado: escrever um manual de "Como brincar aperreando o seu pai". A ideia do livro é, segundo a própria autora, ajudar essas crianças e famílias a se tornarem mais felizes. O lançamento acontece neste sábado (11), na Livraria Leitura, do Shopping Tacaruna, às 16h.

"Muitas amigas minhas não têm o pai para dar atenção. Eu brinco muito com meu pai e é muito bom. Este livro pode ajudar as filhas e os filhos que não brincam com os seus pais a começarem a brincar, pois existe pai que não gasta tempo para brincar com os seus filhos e isso é muito triste", contou Letícia. Ela ainda lembra que este é só o primeiro passo. "É só o início das brincadeiras. Depois, cada um inventa as suas com seu próprio pai".

"Como brincar aperreando o seu pai" é dividido em dez capítulos com as brincadeiras preferidas de Letícia com o professor Geraldo Jorge Barbosa de Moura, do Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco, que garante que o manual não é nenhuma indireta para ele. "A gente vive em uma sociedade tão imediatista que os pais tercerizam esses momentos. Minha prioridade é minha filha. Nosso relacionamento é tão saudável que serviu de estímulo para ela escrever", esclareceu o papai.

Entre as dicas da garota, há um capítulo só sobre como convencer seu pai a fazer o que você quer, e a receita é simples. "Primeiro: deixe seu pai ficar descansado. Segundo: pule em cima dele e comece a fazer cosquinhas. Terceiro: mele a orelha dele de saliva, que é o mais legal", diz. E ela confessa que essa é sua brincadeira favorita.

Feito por uma criança para outras crianças, a obra mantém a linguagem infantil e só passou por revisões ortográficas da editora. As ilustrações e até mesmo as cores passaram pelo aval da pequena. Empolgada com a publicação, ela não esconde os planos de continuar a escrever. "Quero muito. Meu próximo livro vai ser sobre a vida dos deficientes. Eles estão nas ruas, nos ônibus, em todo lugar e passam por muitas dificuldades. Quero falar sobre isso para que as outras pessoas possam ajudar", adiantou. Em meio aos projetos grandiosos, Letícia garante que ainda não decidiu o que quer ser quando crescer. "Ainda sou muito pequena, né?", concluiu.

Foto: Divulgação

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ENTREVISTA// Maria do Carmo Camarotti

Apesar da notória evolução dos pais no relacionamento com os filhos, psicanalistas alertam para os riscos da ausência no desenvolvimento das crianças. Timidez excessiva, agressividade e até mesmo depressão podem ser observadas ainda na infância devido à sensação de abandono sentida. Para esclarecer sobre o assunto, o Diario entrevistou a psicanalista especializada em interação pais e crianças, professora de medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba e fundadora e coordenadora do Ciclos da Vida, Maria do Carmo Camarotti.

A relação entre pais e filhos tem melhorado de uma forma geral com o passar dos anos?

Por conta da própria criação, muitas vezes o homem não tem proximidade com os filhos, mas isso tem melhorado bastante. Eles estão mudando muito e reivindicando esse lugar de pai, mas basta fazer uma análise histórica para entender que eles não foram "treinados" para isso. Hoje, desde o início, o homem faz projeto para aquele filho. Se ele chuta bastante na barriga, já fica pensando que pode ser jogador de futebol. E isso é muito importante. O contato do pai com o filho é diferente. Ele tem um jeito diferente de pegar o bebê, tem a barba. Muitas vezes as mães, avós, sogras têm medo. Só deixam o pai pegar quando a criança está grandinha. Não deixa levar para o campo de futebol porque é perigoso, ou então faz questão de estar junto no momento deles. Não adianta deixar que esse contato só se estabeleça na adolescência. Juntos, eles se beneficiam muito.

Qual a importância da presença do pai no desenvolvimento das crianças?

Tanto o pai como a mãe tem importante papel de estruturação subjetiva. É com base nessas relações que os filhos vão se estruturando psiquicamente. O pai se inscreve na vida deles desde os primeiros tempos através dos cuidados e do contato corporal que tem com o bebê. Inicialmente, ele protege mãe e o bebê para que possam viver uma relação que é uma continuidade da vida uterina. Depois, vai ser o facilitador no processo de separação psiquíca da mãe e do filho, vai funcionar como um terceiro que coloca os limites e representa a lei. Ele lembra que a mãe também é profissional e mulher. Também facilita a criança nas suas habilidade de exploração do mundo e na sua autonomia. Um exemplo bem simples para entender melhor isso está nas brincadeiras. A mãe é sempre aquela que coloca o filho no colo, pertinho dela, o pai brinca de cavalinho. As mães tendem a proteger, os pais apresentam o filho para o mundo. Um pai presente facilita a autoestima,  o desenvolvimento cognitivo, da linguagem, as habilidades sociais e a vida emocional, isso tá provado cientificamente.

Quais os danos que a ausência do pai pode causar?

Alguns estudos apontam que ausência pode estar relacionada ao surgimento de comportamentos de risco e antissociais, dificuldade de relacionamento e há quem fale até em uso de drogas e depressão. Na parte comportamental, a criança que vive isso como um abandono pode apresentar um pouco de agressividade. E também é importante atentar para aquele pai que está presente e não está, o que deu origem ao livro da Letícia. Um pai que é ausente psiquicamente, não brinca com o filho e não dá o tempo para o filho pode causar a sensação de abandono ou sentimento de rejeição na criação.

Quais os sinais do comportamento infantil devem despertar a atenção de que algo está errado?

Alguns comportamentos indicam um pedido de ajuda. Uma criança mais tímida, mais insegura. O pai tem a função de proteção. Com ele, a criança se sente fortalecida. É uma questão da própria sociedade, não podemos fugir.

Quais as principais atitudes que podem ser tomadas para tentar melhorar a relação?

É importante ressaltar que nem sempre a função paterna é feita pelo pai. Cabe a mãe ser guardiã desse lugar e preservar a imagem dele. Ele é uma das figuras identificatórias para as crianças. Em casos de morte ou separação, muitas vezes por conta da raiva elas começam a denegrir a imagem do homem. E é a partir da relação com o pai e com a mãe que a criança vai fazer as escolhas futuras. Quando há uma desconfiança, é melhor procurar um especialista. Às vezes, não é preciso psicoterapia, mas tudo depende do grau de dificuldade. É importante que os pais fiquem alerta e comecem a dar mais atenção aos filhos. Qualidade é importante, mas quantidade também. É preciso reservar um tempinho para eles. Um especialista acompanhando a criança e os pais pode intermediar nessa relação.

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Foto: Reprodução

Rodas de Diálogo

Para expressar dificuldades, compartilhar experiências e obter esclarecimentos sobre os cuidados na educação dos filhos, o Ciclos da Vida promove Rodas de Conversa onde os mais variados temas são abordados por especialistas que trabalham com crianças. O encontro acontece neste sábado (11), a partir das 11h, na Livraria Jaqueira. Mais informações pelo telefone (81) 9649-1575 ou através do e-mail contato@ciclosdavida.com.

Fonte: Diario de Pernambuco

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