Confraria do gagau

Para encarar os desafios da maternidade com mais leveza, trocar figurinhas é fundamental. Em confrarias online ou presenciais, erros e acertos são partilhados

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Amigas de longas datas que pariram na mesma época decidiram cuidar das crias de mãos dadas. Hélia Scheppa/JC Imagem

 

Sabe aquela conversa de que cada parto bem-sucedido traz ao mundo duas novidades: (pelo menos) uma criaturinha lambuzada e uma mãe, por tabela? É clichê, mas é verdade. E por mais que a gestante participe de cursos, leia vorazmente sobre as frágeis e ruidosas maquininhas de fazer cocô e capriche no enxoval, no quarto decorado e no receptivo lúdico todinho, cruzar a risca da maternidade nunca é uma missão fácil. São meses de pouco sono, muito trabalho e fortes emoções.

Sabe aquela conversa de que cada parto bem-sucedido traz ao mundo duas novidades: (pelo menos) uma criaturinha lambuzada e uma mãe, por tabela? É clichê, mas é verdade. E por mais que a gestante participe de cursos, leia vorazmente sobre as frágeis e ruidosas maquininhas de fazer cocô e capriche no enxoval, no quarto decorado e no receptivo lúdico todinho, cruzar a risca da maternidade nunca é uma missão fácil. São meses de pouco sono, muito trabalho e fortes emoções.

Nem todas mágicas e maravilhosas, como passamos a gestação inteira fantasiando. No meio da rotina hercúlea de dar de mamar, botar para arrotar, trocar fralda e colocar para dormir infinitas vezes ao longo do dia, da noite e da madrugada, é humanamente impossível não fraquejar. E para aplacar a fadiga angustiada do pós-parto, nada melhor que uma mão amiga. Aliás, uma mãe amiga. Por que ter filhos é, necessariamente, uma experiência gregária. “Quando a gente compartilha esses momentos, a tensão e a ansiedade diminuem”, avalia a psicóloga Danielle Diniz.

Enquanto ela teoriza sobre o assunto, o que não falta é genitora de primeira viagem colocando em prática a solidariedade materna para pedir e também para dar ajuda enquanto a experiência não vem com o passar dos anos. E na hora de trocar figurinhas, qualquer cenário é válido. Há quem recorra à internet, quem prefira o colinho da mamãe e também quem não abra mão da companhia inseparável das amigas. E, se elas também estiverem às voltas com um bebê dentro de casa, aí é inevitável que a coincidência vire confraria.

Foi o que aconteceu com as amigas Joana Chaves, Luciana Veras, Luciana Teixeira e Rosa Pérez, todas balzaquianas e quase todas mães de primeira viagem. Elas decidiram se unir para chorar e rir juntas da maternidade desde as primeiras semanas de vida de seus rebentos. “Eu e Joana já nos encontrávamos, aí tivemos a ideia de chamar outras amigas que também tinham acabado de parir. Daí em diante, o grupo foi crescendo e já chegamos a reunir 12 mães com suas respectivas crias”, conta Luciana, ou simplesmente Luli, mãe da charmosa Olívia e orgulhosa sócia-fundadora do Encontro dos Bebês.

Nos primeiros meses do grupo, conta Luli, os encontros eram semanais. Mas agora que a licença-maternidade da maioria das integrantes expirou, a periodicidade das reuniões passou a ser mensal. Elas garantem, no entanto, que não desistirão nem tão cedo do fórum de discussão e lazer que criaram. “Às vezes a gente fala de fralda, às vezes de cólica, de amamentação, de sopinha, de maridos, de política, de futebol, de tudo. Afinal, ninguém é só mãe na vida”, diz Luciana, traduzindo com humor a filosofia do consórcio de amigas parideiras. Mais que trocar dicas de pomadas eficientes e pediatras camaradas, elas conseguiram animar o claustro dos primeiros meses de vida do bebê com doses constantes de coletividade. “Não suportaria ficar enfurnada em casa, endoidando sozinha por seis meses”, desabafa Luciana Teixeira, mãe da gorduchinha irresistível Lis. Aos cinco meses de vida, a bebê já tem uma patota para chamar de sua, da qual fazem parte ainda os rechonchudos Antonio Freire, Beatriz Pinheiro, Bento Leão, Celeste Laporte, Helena Markman, Helena de Albuquerque, Lara Pessoa, Luis Glasner, Olga Dornelles, Pedro Lapa e Theo de Mello. Outros membros efetivos e afetivos que fazem questão de ser citados são os pais. “Esse período não é angustiante só para as mães não. A gente até pode estar trabalhando, mas também só fala em fraldas e adjacências”, brinca Thiago Marinho, agora mais conhecido como “o pai de Olívia”.

Até para as agruras da amamentação, a solidariedade pode ser a saída. Tanto que o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) decidiu criar o Grupo de Mães Monitoras em Aleitamento Materno, formado por 25 genitoras voluntárias, que foram treinadas para orientar mulheres em suas comunidades durante a amamentação. “As mães chegam a confiar mais nessas monitoras que em seus próprios médicos”, diz a pediatra Vilneide Braga, coordenadora do Banco de Leite do hospital, que não vê nada de estranho nisso. Às vezes, diz, tudo que uma mãe precisa é do colo de outra.

ONLINE Mas e quando a dúvida e/ou o desmantelamento acometem as mães bem no meio da madrugada? O jeito é recorrer à internet. E, uma vez online, pelo menos 60 recifenses com filhos de poucas semanas em diante vão direto para a comunidade A Louca da Fralda, fundada há pouco mais de um ano pela publicitária Juliana Lisboa, 36. “Minha filha tinha acabado de nascer e eu me pegava cheia de dúvidas com relação a amamentação, sono, cólicas. Percebi que não era a única mãe indócil naquele momento e decidi trocar experiência pelo Facebook.”

Deu tão certo, que a comunidade não parou de crescer até hoje. E sabe por quê? Juliana tem a resposta na ponta da língua: “As mães são solidárias. E amostradas. Adoram falar dos filhos e nunca dispensam uma troca de informação. Acho que faz parte do instinto maternal.”

Aparece de tudo nos temas debatidos com afinco na comunidade. “Cólicas, por exemplo, estão sempre em pauta.” Mas, no presente momento, as babás, na verdade, a falta delas é, disparado, o assunto que mais angustia a mulherada online. Outra fonte de estresse para muita gente são os pitacos que vêm do galho de cima da árvore genealógica. “Esse conflito é comum, porque muitas avós querem que as mães cuidem da criança da mesma forma como elas cuidaram dos próprios filhos.

O choque entre a orientação do pediatra e das avós é inevitável”, diz a psicanalista Maria do Carmo Camarotti, do Centro de Formação e Acompanhamento Ciclos da Vida, que promove reuniões regulares com pais, avós e cuidadores de crianças para orientar na árdua missão de educar.

Segundo ela, a prova de que a maternidade é um papel social que exige muita interação é a atração irresistível que uma mãe tem pela outra. “Na sala de espera do médico e até em salão de beleza, a educação dos filhos e as dificuldades em lidar com aspectos do desenvolvimento deles são naturalmente debatidas”, avalia.

Para a publicitária Daniela Koury, 35, falar da cria chega a ser indispensável. Tanto que ela já participava de quatro comunidades de mães online – entre elas A Louca da Fralda – e, como se não bastasse, criou mais uma este ano: a Diversão para a Criançada, também no Facebook. “A proposta é que os membros postem dicas e sugestões de programas ou lugares legais para crianças no Recife”, explica Dani, que avisa: o “serviço” estreou este ano e já reúne 87 membros.

Além de opções de lazer as mais diversas para o filho Luca, 2, o que Dani descobriu online é que a maternidade ensina a ser gente e a ser cidadão. “Passamos a praticar e apreciar mais a coletividade, a construção conjunta e aprendemos o quanto não sabemos quase nada da vida”, afirma. Olhando por outro ângulo, talvez as confrarias do leite estejam aí para mostrar o quanto temos a aprender com nossos semelhantes, antes, durante e após o puerpério.

Fonte: JC Online - Suplementos

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